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Áreas protegidas na Amazônia perderam em vegetação o equivalente a seis cidades de São Paulo em três décadas.

Segundo a matéria publicada pelo G1, áreas na Amazônia pertencentes a Unidades de Conservação (UCs) vem sofrendo com o desmatamento provocado pelo aumento da atividade agropecuária na região. Terras indígenas e quilombolas também foram afetadas. Mesmo em grandes proporções, as áreas de floresta amazônica perdidas nas UCs ainda são muito menores do que em áreas não protegidas, estas últimas sendo equivalente ao tamanho de 262 cidades de São Paulo.

Através da análise de dados de satélite, é possível ver que não só na Amazônia mas em todos os biomas brasileiros, há perda de florestas por causa do cultivo de áreas agrícolas.

Outro ponto importante da reportagem, é o relato de um ex-apicultor residente próximo à Flona Tapajós, que assegura que as abelhas foram exterminadas devido a aplicação de agrotóxicos em áreas agricultáveis próximas ao local de sua moradia. Já publicamos várias postagens sobre o uso indiscriminado de agrotóxicos e suas consequências, como a seleção de pragas mais resistentes, malefícios à saúde humana e principalmente com relação à morte de animais polinizadores, como as abelhas. Várias espécies de culturas de alimentos, como café e cacau, dependem da polinização animal. Além disso, a polinização é um serviço ecossistêmico de regulação que, realizada por muitas espécies como insetos, pássaros e morcegos, favorece a manutenção da produtividade agrícola.

O problema do crescente desmatamento na Amazônia, devido aos setores madeireiro, minerador e principalmente ao agropecuário, é antigo. A fiscalização e o combate ao desmatamento acontece de forma precária e ineficaz em nosso país. Além de vários problemas advindos do desmatamento, é bem provável que nosso país não cumprirá o Acordo de Paris, que visa a diminuição de gases estufa liberados na atmosfera, como o gás carbônico. Assim, além de desmatar também contribuímos para a crise climática mundial.


Danilo Vieira, biólogo, professor, mestre em Ecologia de Biomas Tropicais e consultor ambiental na Vellozia Estratégia e Consultoria Ambiental.
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Agricultura: sistema convencional e o sistema agroecológico.


Os sistema convencional de produção de alimentos em larga escala, na maioria das vezes, não é compatível com um modelo sustentável/agroecológico e tende a se tornar improdutivo no futuro. O seu uso ainda é pautado no argumento de que ele é necessário para atender à crescente população mundial. As práticas que vão desde o uso de toneladas de agrotóxicos, fertilizantes inorgânicos, plantas híbridas ou transgênicas, aragem, irrigação, dentre outras, conseguem entregar uma produção alta que trazem lucros para o produtor rural, mas gerando um alto custo para meio ambiente e também para nossa saúde. Apesar de serem práticas que podem trazer certas vantagens, também geram várias desvantagens, como por exemplo:
  • Sementes híbridas exigem condições ótimas para alcançar todo seu potencial, assim precisam de mais fertilizantes sintéticos e mais pesticidas para um melhor desenvolvimento.
  • Plantas transgênicas podem exigir mais agrotóxicos e causar impacto na biodiversidade ao contaminar lavouras convencionais cultivadas a milênios.
  • A aragem causa diminuição da matéria orgânica pela falta de cobertura vegetal e potencializa a lixiviação do solo.
  • Os fertilizantes inorgânicos podem ser transportados pelas chuvas ou irrigação até lagos e rios causando eutrofização.
  • Os agrotóxicos podem eliminar os inimigos naturais das pragas e também ajudar a selecionar pragas cada vez mais resistentes, fora os males causados à nossa saúde.
  • A irrigação pode aumentar o grau de erosão dos solos, transportar os fertilizantes utilizados até os rios, afetar os padrões de regime de chuvas pela retirada de águas do subsolo.
A agricultura convencional não é uma forma sustentável de produção de biomassa. Por isso aplicar os conceitos ecológicos é essencial para um agrossistema sustentável. O maior desafio do sistema agroecológico (agroecossistema) é conseguir não degradar o meio natural (manter as características de um ecossistema natural) e ao mesmo tempo manter uma produção de alto rendimento para o produtor rural. Para usufruir desse tipo de sistema, a entrada e insumos externos deve ser mínima. No lugar de produtos químicos e sintéticos como fertilizantes e agrotóxicos, usa-se adubos orgânicos e utiliza-se o controle biológico de pragas; policultura e intercalamento de espécies no lugar de monocultura; uso de plantas que se associam a bactérias (bacteriorrizas) e fungos (micorrizas), que capturam nutrientes importantes para o solo como nitrogênio e fósforo, respectivamente. Manter o entorno da área de cultivo bem preservado também é essencial, pois a manutenção da riqueza biológica de todo o ecossistema possibilita a existência de serviços ecossistêmicos importantes como polinização e o controle natural de pragas.
Portanto, quando o agroecossistema é implantado em um determinado ambiente, mesmo que modificado, ele consegue incorporar as qualidades de um ecossistema natural como resistência a perturbações e estabilidade, ou seja, consegue manter o equilíbrio ambiental ao mesmo tempo que desenvolve uma agricultura ambientalmente sustentável e produtiva.
Danilo Vieira, biólogo, professor, mestre em Ecologia de Biomas Tropicais e consultor ambiental na Vellozia Estratégia e Consultoria Ambiental.

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Agrotóxicos: é indo para trás que se avança?

Postagem publicada originalmente em 2018 no nosso antigo blog.

O Brasil, mais uma vez, caminha a passos largos em direção contrária a que caminha o mundo. Somos especialistas em ser o chamado “do contra”. E isso não é privilégio desse ou daquele setor, mas algo quase sistêmico. Para ficar só em alguns exemplos temos a política, economia, urbanização, investimento em combustíveis fósseis (quando o mundo está investindo em alternativas limpas), preservação ambiental e, tema deste texto, na política de utilização de pesticidas agrícolas. Os chamados agrotóxicos.

É de longa data a preocupação com os efeitos nocivos que essas substâncias têm na saúde humana. Desde a publicação do livro Primavera silenciosa, de Rachel Carson em 1962, o mundo vem tomando consciência dos riscos causados pelos pesticidas agrícolas. Para quem não leu o livro, esta obra é um dos grandes marcos da questão ambiental global. A autora escreve sobre suas observações e de outros autores sobre os efeitos (hoje bem conhecidos) sobre a biodiversidade em áreas que utilizam essas substâncias. Os pesticidas são utilizados visando-se a eliminação de determinada espécie animal prejudicial à lavoura. Seu efeito, porém, não é específico e acaba eliminando diversos outros animais. Inclusive, animais domésticos.
Não deve ser muito difícil para o leitor perceber que se os agrotóxicos têm efeitos nocivos a animais domésticos, terão também sobre a saúde humana. Os agrotóxicos podem ter diversos efeitos à saúde humana, como: abortos, malformação em crianças, infertilidade em homens e, até mesmo, câncer.
Isso gerou uma grande debate na sociedade sobre os potenciais, e reais, riscos que os pesticidas agrícolas podem causar. Somado a preocupação com a saúde humana, o aumento da consciência ambiental, fizeram com que fosse defendido a redução de defensivos agrícolas em várias partes do mundo. Nesse processo, várias substâncias foram proibidas e muitas outras criadas. Com isso, tornou-se cada vez mais comum a procura por produtos orgânicos, para quem pode pagar. Já para quem não pode, o consumo de agrotóxicos vem crescendo cada vez mais.
Bem, traçado um pouco do cenário sobre o assunto para o leitor, vamos agora ver como nosso país vem tratando a questão. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. E à medida que a nossa produção agrícola aumenta, consequentemente, aumenta o consumo dessas substâncias.
É nesse cenário que o Congresso nacional discute uma lei de flexibilização para o uso de agrotóxicos em nosso país. A relatoria é do Deputado Federal Luiz Nishimori do PR e a proposta original é de 2002 feita pelo então senador, Blairo Maggi, do Progressistas, que hoje é o ministro da Agricultura. Esse projeto visava concentrar a autorização para venda de pesticidas no Ministério da Agricultura. Nem é preciso dizer o quanto prejudicial seria para a sociedade essa decisão, pois o ministério é um órgão político onde o ministro toma decisões, muitas vezes, de caráter político e não com bases técnicas. Isso retiraria a isenção do processo de autorização, que hoje passa pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).
Além disso, o projeto de lei muda o nome de “agrotóxico” para “produto fitossanitário”. O que é um escárnio, uma vez que esta medida tem como objetivo enganar a população ao se utilizar um termo “desconhecido” e mais ameno, em vez de agrotóxico termo amplamente conhecido e com alto índice de rejeição pela sociedade.
Várias soluções vêm sendo buscadas para substituir os pesticidas agrícolas, com destaque para a Agroecologia. Infelizmente, a agroecologia vem enfrentando grande resistência por parte dos produtores agrícolas que, por enquanto, não têm interesse em buscar novas forma de produção de alimentos em detrimento da maneira tradicional. Um cenário triste que, por enquanto, dificilmente irá mudar. Se depender de alguns nomes de nossa política, estaremos cada vez mais expostos aos riscos de se ingerir substâncias tóxicas, destruindo nossa biodiversidade e contaminando nossos mananciais de águas.
Diego D. Dias, biólogo, mestre em ecologia de biomas tropicais e consultor ambiental na Vellozia Estratégia e Consultoria Ambiental.
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