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Meio ambiente x Saúde: há alguma relação?


Quando falamos em impactos ambientais, degradação do meio ambiente e invocamos para ilustrar esses casos o desmatamento da Amazônia ou a poluição dos rios, como o caso do rio Tietê em São Paulo, pensamos em coisas distantes, mesmo que próximo a você tenha um rio poluído, não fazemos uma associação direta entre esses impactos e nós. Sabemos (sabemos mesmo ou ouvimos tanto isso que começamos a repetir?) que preservar a natureza é importante, que devemos salvar as baleias e as árvores, mas, muitas vezes, não conseguimos encontrar uma relação direta entre os danos ao meio ambiente e nós.
Muitos evocarão, e estão certos, as mudanças climáticas. Outros dirão que é apenas papo de ambientalistas, que são contra o desenvolvimento e que se depender deles no futuro só comeremos árvores (pode parecer engraçado essa última, mas ouço muito isso no dia a dia). Mas o que muitos ainda não conseguem perceber é que existe uma relação direta entre degradação ambiental e saúde humana.
Esse é um fato engraçado, se levarmos em conta a história da humanidade, já que atingimos o nível de longevidade, saúde e bem-estar que temos hoje ao explorar o meio ambiente. É difícil entrar na cabeça das pessoas que, mesmo que tenha sido assim nos últimos 200 anos, manter essa intensidade de exploração nos conduzirá ao colapso.
A relação entre saúde e degradação ambiental é bem séria e vem trazendo consequências para a população global e para os governos. A poluição do ar causada pela queima de combustíveis, gases tóxicos produzidos por empresas e excesso de material particulado no ar das grandes cidades causam aumento de doenças respiratórias, aumento do custo para governos com tratamentos médicos. Para você ter uma ideia, segundo o professor da USP Nelson da Cruz Gouveia em entrevista para a UnB Agência, um levantamento feito em sete capitais brasileiras aponta que 5% das internações por doenças respiratórias são, exclusivamente, por causa da poluição.
Além disso, temos as doenças que são conseguidas de forma indireta ao impacto causado, como por exemplo a leptospirose, que é uma das preocupações dos órgãos de saúde com as enchentes nos grandes centros urbanos. Essa doença é causada por uma bactéria presente na urina dos ratos. O lixo jogado na rua por moradores das cidades acaba entupindo bueiros e, consequentemente, causa enchentes. A água das enchentes mistura-se à urina dos ratos e pode fazer com um alguém que entre em contato com a enchente contraia a doença.
Temos vários exemplos de doenças que podem afetar o Homem devido a danos ao ambiente, como a Dengue, Febre amarela (com recente surto no país), Chikungunya, Zika, Doença de Chagas, entre outras. O desmatamento de florestas nativas, faz com que os vetores dessas doenças migrem de regiões naturais para próximo de habitações humanas e, em alguns casos, para grandes centros urbanos.
Tirando o risco que corremos de contrairmos essas doenças e, em casos mais extremos, falecer por causa delas, há, também o problema econômico, porque o governo gasta bilhões em combate aos vetores e tratamentos dessas enfermidades. Só para você ter uma ideia, só com doenças causadas pelo mosquito Aedes aegypti, gastou-se 2,3 bilhões de reais em 2016. Dinheiro que, caso não houvesse essa necessidade, poderia ter ido para outros setores importantes do país (caso não fosse “parar” em alguma conta na Suíça). É triste dizer isso, mas estamos no Brasil, né?!
Portanto, como vimos, meio ambiente é muito mais do que um parque bonito, um animalzinho fofinho em campanhas de preservação ou uma obrigatoriedade da lei. É questão de sobrevivência. Na maior parte do tempo esquecemos que somos parte da natureza também. Ainda falaremos mais desse assunto aqui no blog em outros textos. Deixe nos comentários suas dúvidas e opiniões.
Diego D. Dias, biólogo, mestre em ecologia de biomas tropicais e consultor ambiental na Vellozia Estratégia e Consultoria Ambiental.
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Agrotóxicos: é indo para trás que se avança?

Postagem publicada originalmente em 2018 no nosso antigo blog.

O Brasil, mais uma vez, caminha a passos largos em direção contrária a que caminha o mundo. Somos especialistas em ser o chamado “do contra”. E isso não é privilégio desse ou daquele setor, mas algo quase sistêmico. Para ficar só em alguns exemplos temos a política, economia, urbanização, investimento em combustíveis fósseis (quando o mundo está investindo em alternativas limpas), preservação ambiental e, tema deste texto, na política de utilização de pesticidas agrícolas. Os chamados agrotóxicos.

É de longa data a preocupação com os efeitos nocivos que essas substâncias têm na saúde humana. Desde a publicação do livro Primavera silenciosa, de Rachel Carson em 1962, o mundo vem tomando consciência dos riscos causados pelos pesticidas agrícolas. Para quem não leu o livro, esta obra é um dos grandes marcos da questão ambiental global. A autora escreve sobre suas observações e de outros autores sobre os efeitos (hoje bem conhecidos) sobre a biodiversidade em áreas que utilizam essas substâncias. Os pesticidas são utilizados visando-se a eliminação de determinada espécie animal prejudicial à lavoura. Seu efeito, porém, não é específico e acaba eliminando diversos outros animais. Inclusive, animais domésticos.
Não deve ser muito difícil para o leitor perceber que se os agrotóxicos têm efeitos nocivos a animais domésticos, terão também sobre a saúde humana. Os agrotóxicos podem ter diversos efeitos à saúde humana, como: abortos, malformação em crianças, infertilidade em homens e, até mesmo, câncer.
Isso gerou uma grande debate na sociedade sobre os potenciais, e reais, riscos que os pesticidas agrícolas podem causar. Somado a preocupação com a saúde humana, o aumento da consciência ambiental, fizeram com que fosse defendido a redução de defensivos agrícolas em várias partes do mundo. Nesse processo, várias substâncias foram proibidas e muitas outras criadas. Com isso, tornou-se cada vez mais comum a procura por produtos orgânicos, para quem pode pagar. Já para quem não pode, o consumo de agrotóxicos vem crescendo cada vez mais.
Bem, traçado um pouco do cenário sobre o assunto para o leitor, vamos agora ver como nosso país vem tratando a questão. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. E à medida que a nossa produção agrícola aumenta, consequentemente, aumenta o consumo dessas substâncias.
É nesse cenário que o Congresso nacional discute uma lei de flexibilização para o uso de agrotóxicos em nosso país. A relatoria é do Deputado Federal Luiz Nishimori do PR e a proposta original é de 2002 feita pelo então senador, Blairo Maggi, do Progressistas, que hoje é o ministro da Agricultura. Esse projeto visava concentrar a autorização para venda de pesticidas no Ministério da Agricultura. Nem é preciso dizer o quanto prejudicial seria para a sociedade essa decisão, pois o ministério é um órgão político onde o ministro toma decisões, muitas vezes, de caráter político e não com bases técnicas. Isso retiraria a isenção do processo de autorização, que hoje passa pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).
Além disso, o projeto de lei muda o nome de “agrotóxico” para “produto fitossanitário”. O que é um escárnio, uma vez que esta medida tem como objetivo enganar a população ao se utilizar um termo “desconhecido” e mais ameno, em vez de agrotóxico termo amplamente conhecido e com alto índice de rejeição pela sociedade.
Várias soluções vêm sendo buscadas para substituir os pesticidas agrícolas, com destaque para a Agroecologia. Infelizmente, a agroecologia vem enfrentando grande resistência por parte dos produtores agrícolas que, por enquanto, não têm interesse em buscar novas forma de produção de alimentos em detrimento da maneira tradicional. Um cenário triste que, por enquanto, dificilmente irá mudar. Se depender de alguns nomes de nossa política, estaremos cada vez mais expostos aos riscos de se ingerir substâncias tóxicas, destruindo nossa biodiversidade e contaminando nossos mananciais de águas.
Diego D. Dias, biólogo, mestre em ecologia de biomas tropicais e consultor ambiental na Vellozia Estratégia e Consultoria Ambiental.
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